Lideranças comunitárias na vanguarda do empreendedorismo feminino

Desigualdades, preconceito e a falta de oportunidades são obstáculos a serem superados pelas mulheres que se desafiam no empreendedorismo

Dados recentes do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) apontam que o número de empresárias no Brasil subiu 34% nos últimos 14 anos. Apesar de a diferença entre a quantidade de homens e mulheres no ramo do empreendedorismo corporativo ainda ser grande, o número já apresenta os efeitos de mudanças econômicas e sociais sobre as recentes oportunidades conquistadas pelas mulheres.

Na atual dinâmica da economia, o abismo que havia entre as responsabilidades privadas (família, filhos, afazeres domésticos) e públicas (trabalho e vida social) tem diminuído: a mulher conquista seu espaço em ambientes públicos ao mesmo tempo em que o homem assume tarefas dentro do ambiente privado. Nesse contexto, é natural que mais mulheres se arrisquem no campo do empreendedorismo.

Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho passou a demandar maior diversificação nos perfis de seus líderes, relegando as supostas diferenças entre os gêneros a um segundo plano. A inserção da mulher no mercado de trabalho expandiu as possibilidades de encontrar pessoas com as características específicas necessárias. Outro fator importante é a visibilidade das redes sociais, assim como a recente agenda de empoderamento feminino adotada por diversos setores civis e governamentais, que tem contribuído para fortalecer a presença da mulher em posições anteriormente tidas como exclusivamente dos homens.

O crescimento da presença feminina entre as lideranças de empresas é exemplo de uma força motora que ocorre dentro das comunidades há muito mais tempo. Na vanguarda deste empreendedorismo, líderes comunitárias assumem o papel de centralizar e defender os interesses comuns, por meio de projetos e soluções que fortalecem o coletivo e promovem a integração. Neste ambiente, as mulheres se destacaram pelo equilíbrio entra a casa, a família, o trabalho e a própria comunidade, todos com o mesmo nível de importância e participação. Tal realidade permitiu o desenvolvimento de uma visão estratégica sobre melhores escolhas e decisões para se tomar em cada situação.

Projetos de geração de renda estão entre os mais procurados por empreendedoras femininas, mas não são os únicos. Um dos principais objetivos das mulheres líderes de suas comunidades é provocar uma real mudança em seu território, seja pelo aumento da renda de seu grupo social ou por projetos culturais que mantenham vivas as tradições locais. O trabalho em comunidades e cooperação entre seus membros superam os preconceitos, alcançando resultados palpáveis e, de fato, transformadores.

A líder comunitária Jordânia Pereira, por exemplo, percebeu em paletes descartados no bairro do Vale do Sol, em Barueri (SP), uma oportunidade contribuir com sua comunidade e realizar bons negócios. O material era queimado, desperdiçando matéria-prima para outros objetos. Por meio da mobilização da própria comunidade, Jordânia acionou a prefeitura local e responsabilizou-se pelo uso e destinação do material, que foi inicialmente transformado em casinhas de cachorro e revendidos, gerando renda para os membros do grupo. O projeto chamou a atenção do terceiro setor, que fomentou a profissionalização do grupo do qual nasceu a Cooperativa Unindo Forças, que hoje transforma os paletes em móveis e objetos de decoração. Atualmente, a rede de varejo Tok&Stok é uma das revendedoras dos produtos desenvolvidos pelo coletivo, afirmando o reconhecimento e qualidade da produção. A Cooperativa, além de proporcionar uma melhora significativa na autoestima da comunidade, gera uma renda média mensal de R$ 1200 para suas cooperadas.

O projeto Nova Limpet é outro exemplo da importância das lideranças femininas. Moradoras de Carapicuíba (SP), as representantes da Associação São Cosme e Damião, gestora do projeto, apostaram na técnica de transformar garrafas pet, material descartado incorretamente e em abundância na cidade, em vassouras ecológicas. Formado por mulheres e para mulheres, o grupo enxerga no empreendimento uma forma de empoderamento e emancipação de suas integrantes, em sua maioria mulheres em situação de vulnerabilidade social, por meio da produção sustentável econômica, social e ambiental. Todos os meses, são usadas cerca de 3300 garrafas pet para a produção de 300 vassouras, comercializadas localmente.

O caminho a ser percorrido ainda é longo. Desigualdades, preconceito e a falta de oportunidades são obstáculos a serem superados pelas mulheres que se desafiam no empreendedorismo. Vendo resultados de projetos tão importantes para as comunidades, é possível vislumbrar mudanças positivas nesse cenário, tanto dentro das empresas quanto entre as comunidades. O sucesso das empreendedoras femininas é mais um tijolo na construção de uma sociedade mais igualitária.

Notícia retirada do site: www.administradores.com.br

 




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