Mulheres negras contam dificuldades por gênero e raça no empreendedorismo

Dificuldade de acesso a ferramentas básicas, descrédito, questionamentos inesgotáveis. As trajetórias das mulheres negras no empreendedorismo são ainda cheias de desafios impostos pelo machismo e pelo racismo na sociedade. Elas, porém, lutam para tocar os seus negócios, muitas vezes preocupados em atender clientes esquecidas pelo mercado. Em homenagem aos dias do Empreendedorismo Feminino (19) e da Consciência Negra (20), o EXTRA reuniu histórias de mulheres negras que dão lições de gestão e criatividade.

Todos os indicadores de renda, número de empregados, escolaridade e socioeconômicos dos empreendedores negros são inferiores aos dados de donos de negócios brancos. A gente sabe que esses números influenciam os negócios. Eles têm mais dificuldade de empreender. E entre as mulheres negras, isso piora. Todos esses grupos sociais que são estigmatizados têm mais dificuldade de desempenhar papéis de liderança, sofrem com descrédito, têm dificuldades quando vão ao banco — explica Suzana Mattos, analista do Sebrae.

Entre os donos de negócios negros, 52% possuem o ensino fundamental incompleto e apenas 7% fizeram ensino superior. Entre os brancos, apenas 40% tem o fundamental incompleto e 23% tem graduações. A média de estudos é de 6,7 anos entre negros, enquanto que entre os brancos é de 9,1 anos. O acesso a microcomputador e internet também é bem menor entre negros: 42% e 35%, respectivamente, contra as taxas de 66 e 60% dos brancos.

E o vácuo de equipamentos e serviços não existe só para empreendedores. Segundo estudo da Etnus, de 2016, 89% da população negra acha que as empresas deveriam produzir produtos específicos para pele, cabelo e corpo negro. É o que muitas mulheres têm feito, cientes do que é ser uma cliente negra.

— No segmento de moda afro, podemos dizer que é a maioria que pensa e quer com seus serviços e produtos contribuir para solucionar isso (a falta de representatividade no mercado) — afirma Suzana.

Leia depoimentos das empreendedores

Jaciana Melquiades, da Era uma vez o mundo

Jaciana começou o negócio com um investimento próprio de R$ 2.000. Ela só trabalha com encomendas e, neste ano, vendeu mais de 500 bonecas do modelo Dandara.

— Tenho uma vida inteira na educação e faço parte de um coletivo de mulheres negras que fazem trabalhos em escolas com o propósito de desenvolver a educação antirracista. Essa experiência com a educação fez com que eu tivesse acesso a uma série de problemas e limitações que a escola tem nos materiais. Associado a isso, eu me tornei mãe. Grávida, eu comecei a ter uma série de dificuldades para encontrar bonecos para decorar o quarto do meu filho, com algum elemento que parecesse com uma criança negra. Comecei a pensar que o que eu tinha habilidade para fazer poderia virar um negócio. Tenho hoje um selo editorial e a Era uma Vez o Mundo, que faz os bonecos negros, atividades com crianças nas escolas e oficinas com professores — conta ela.

Dommenica Silva, da Tulipa Lingerie

Uma das cenas mais marcantes de racismo para Dommenica aconteceu quando ela ainda nem era empreendedora. Trabalhando no setor de Recursos Humanos de uma empresa, ouviu a filha do dono dizer que só de vê-la percebia que ela não tinha perfil para estar na empresa.

Fazer diferente é uma preocupação sua com a Tulipa Lingerie. Ela trabalha pela inclusão também em outras frentes, fazendo uma moda que respeite corpos diferentes, com modelos reais.

— O padrão te coloca para baixo. Eu sempre vesti 44, 46. Então, você entrar numa loja e vestir 48 significa que a roupa diminuiu para você caber nesse padrão. Eu sou muito feliz quando ouço uma cliente falar que a autoestima melhorou depois da minha lingerie, que a mulher se sente mais bonita, que se olha no espelho e pensa que casaria com ela própria — orgulha-se.

A empresa nasceu em setembro, com um investimento próprio de R$ 900 e tem mais de 200 clientes fixas atualmente.

Edna Rosa, da Afrobeach Brasil

A Afrobeach vende peças de moda praia para qualquer pessoa e tem mulheres brancas como a maioria das clientes. As referências afro em seu negócio, porém, geram alguns incômodos ainda.

— Uma vez, me questionaram por quê afrobeach, se a praia era de todos. Também perguntam o motivo de usar apenas modelos negros. Eu uso apenas modelos negros para dar oportunidade para pessoas que outras marcas não dão — afirma.

Edna começou o negócio no ano passado, após fazer um curso de Design de Moda Praia. Ela vende cerca de 200 biquínis por mês, pela internet e em eventos. Mas, para ser tratada como igual, é grande o esforço .

— Mesmo em uma feira, em uma exposição, eu tenho que dar meu melhor sempre. Me vestir melhor, ter o stand melhor, porque eu sinto que se não tiver assim eu vou enfrentar algum preconceito — relata ela.

Rita de Cássia Lima, franqueada da Não+Pelo

Rita é empreendedora há mais de 20 anos. O primeiro negócio, aberto por ela e o marido, foi um stand de Informática e Jogos, que acabou migrando seu foco para a venda de cabos.

— Como eu era filha de eletricista e, muitas vezes, os cabos vinham de fora, eu passei a fazer combinações para atender os clientes e foi funcionando. Apesar de eu entender de tudo, os clientes se direcionavam ao meu marido para fazer perguntas. Era eu que respondia, mas olhavam para ele — lembra ela.

Ao perceber que o mercado entrava em crise, Rita resolveu se reinventar. Foi a uma feira de franquias e escolheu a Não + Pelo, assumindo a administração e setor financeiro da empresa.

— Na época em que eu abri, um senhor negro passou na minha porta e falou ‘que bom que você é a dona! Aqui negro não vinga. Boa sorte para você”— afirma.

Élida de Aquino, da Afrô Box

Éllida abriu um negócio de entrega de caixas personalizadas de produtos de beleza para negras por assinatura, em parceria com duas amigas.

— Eram três mulheres negras, periféricas. Dialogar com o mercado investidor formal foi difícil. Um senhor, homem, branco perguntou se a gente achava que isso ia vender, que parecia inviável, mesmo com a gente apresentando dados de uma pesquisa de clientes feita em parceria com a Fundação Getúlio Vargas. Estamos em um país de maioria negra, com cada vez mais voz ativa, proatividade. Estamos falando de um mercado consumidor negro que deseja consumir para se satisfazer e não só o que está disponível — diz Éllida.

A marca já entregou mais de 800 caixas no Brasil todo, em menos de um ano de negócio.

 

Notícia retirada do site: extra.globo.com




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