Pais, filhos e o vazio entre eles.

Será que nós, pais, estamos dando a atenção que nossos filhos precisam?

De quem é a culpa? Ela pode ser sua! Infelizmente, o ser humano tem dificuldade de reconhecer seus erros. Apontar alguém ou alguma situação pelos desacertos é sempre mais viável. Pode “aliviar” instantaneamente o peso da responsabilidade, mas impede a consideração da necessidade de mudança. Confortáveis, seguros ou ocupados demais, os pais estão cegos diante da importância de transição no comportamento familiar. Enquanto os filhos clamam por limites, direcionamento e atenção, eles os empurram para a internet.

Presenciamos assustadoramente cenas protagonizadas por uma geração perdida. Crianças e jovens que encontram no ambiente virtual, desde a mais tenra idade, a relação que buscam para suprir as ausências reais. Nestas últimas semanas, o jogo online “Desafios da Baleia Azul” e a série “13 Reasons Why”, da Netflix, trouxeram um alerta quanto ao suicídio dos jovens. Porém, podem ser eles julgados por inspirar a morte de pessoas pelo mundo todo? Não, de forma isolada.

Os especialistas esclarecem que toda problemática que envolve o suicídio é complexa. Para muitas pessoas, a adolescência é uma fase crítica, de descobertas, cobranças e conflitos, sobretudo emocionais. Isso sem contar as questões fisiológicas, especialmente hormonais. E, neste momento, em que estão em passagem entre a infância e a idade adulta, dependem ainda mais da atenção de seus responsáveis.

O jogo e a série despertaram na sociedade a importância de um olhar mais profundo à questão. A internet surgiu na década de 60 e sua globalização ao longo dos anos seguintes permitiu uma invasão aos lares, sem pedido de licença. Desde que chegou às famílias, é usada sem distinção, regras, restrinjas… Crianças e jovens se enclausuram em seus quartos e vivem uma boa parte do tempo manipulando smartphones e computadores, nas aventuras em bate-papos, redes sociais e games.

Ausentes, seja por conta da demanda de tempo dispensado ao trabalho ou mesmo por omissão, os pais os abandonam e, assim, o vazio permite o preenchimento indiscriminado de conteúdo, que, como no “Desafio da Baleia Azul”, pode ser fatal. E, não se trata de “coisa de adolescente”. Nos dias atuais, no qual o contato com o mundo virtual ocorre ainda na primeira infância, cenas de bebês manipulando tablets, celulares e outros dispositivos móveis se tornaram comuns nos mais variados ambientes. E, de tanto visualizarem os adultos, já se aventuram nas telas touch screen, que sensíveis ao toque conduzem os pequenos à navegabilidade, um caminho muitas vezes sem volta. É preciso cautela.

As crianças chegam a este ambiente sempre motivadas pelos pais. Crentes de garantir-lhes a inclusão digital, entregam os aparelhos em suas mãos e permitem que a navegação ocorra sem atenhas. Há ainda quem oferta o celular na tentativa de obter um “cala a boca” dos pequenos. Nas refeições, nos encontros familiares e com os amigos, o importante, para muitos, é o silêncio. E nesta mudez, perdem-se muitas oportunidades: dialogar, corrigir, sanar dúvidas, educar… Além disso, veta-se a chance da criança se expressar e de sentir-se integrada ao ambiente. É a inclusão digital da exclusão social. Permitir os conhecimentos em tecnologia é uma necessidade latente. Hoje, ela está presente em todos os campos de atividade humana, de forma indispensável. Porém, é preciso disciplina para uma navegação responsável e segura.

Toda e qualquer pessoa quer ser reconhecida, precisa de afeto, atenção. O diálogo tem poder construtivo no ambiente familiar e foi substituído, em muitos lares, pela conversa no Whatsapp, pela invasão excessiva das mídias, pelo silêncio. Ouvir, compreender e buscar preencher as lacunas que compõem a construção do ser humano deixou de ser prioridade. Quem não tem resposta em casa, vai buscá-la fora.

As séries e jogos não desaparecerão da rede mundial de computadores. A presença ativa dos pais, a consciência de que são insubstituíveis na vida dos filhos em todas as fases, e o conhecimento da realidade vivida por eles os armará para o combate, seja ele no ambiente real ou virtual. Proteja enquanto há tempo.

 

Leandro Nigre é pai, jornalista, pós-graduado em Mídias Digitais Interativas e editor-executivo do jornal O Imparcial, em Presidente Prudente. Blog www.papaieduca.com.br

 

 




Comments (1)
  1. Leonardo Camargo Reply

    Que texto! Adorei a reflexão. Tanto para mim…


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